É preciso ter calma.  



Não me lixem! Peço desculpa mas não alinho no afinado coro de que estamos perante um crescendo de indisciplina ou de falta de autoridade nas escolas ou na sociedade. Se as estatísticas valem de alguma coisa, convém dizer que não estamos hoje, em segurança ou na criminalidade, pior que há uns anos atrás, como pretende quem deseja mais “músculo” na sociedade portuguesa.

O mais relevante neste episódio de uma aluna a tentar reaver o telemóvel não é a indisciplina, a rebeldia, ou mesmo a má educação da miúda. O que me impressionou foi a incapacidade da professora em não saber lidar com um pequeno conflito. Sim, um pequeno conflito, não vislumbro ali, nada de muito grave, não há tentativas de agressão ou sequer de grande indisciplina. Vejo ali mais uma rebeldia que se avolumou face à resposta da professora, que outra coisa. Mas não quero desculpar a aluna, obviamente. A escola tem regras que devem ser respeitadas. Mas este acontecimento remete-me para o tipo de formação que é dada aos professores. O ter saberes académicos não é por si, suficiente para exercer a profissão de ensinar. São precisos muitos outros requisitos. Por exemplo, o bom senso. Bastava isso neste caso. Perante a reacção da aluna a professora não devia entrar em “luta” para impor a sua autoridade. Entregava-lhe o telemóvel e dava-lhe uma ordem de expulsão. Tão-só!

É preciso alguma serenidade. Bem sei que talvez nestes momentos conturbados seja pedir muito, mas não vejo outra saída.


9 comentários

  • Lucifer  
    21 de março de 2008 às 03:14

    Por exemplo, o bom senso. Bastava isso neste caso. Perante a reacção da aluna a professora não devia entrar em “luta” para impor a sua autoridade. Entregava-lhe o telemóvel e dava-lhe uma ordem de expulsão. Tão-só!

    ...................................

    Pego nas suas palavras finais e dou-lhe o meu aplauso. Era só isso nada mais que isso. E seria suficiente.
    Seria a força da razão e não como se viu a razão da força, que fez que a professora perdesse toda a sua autoridade.

  • josé manuel faria  
    21 de março de 2008 às 12:13

    Precisamente. A professora errou ao entrar em conflito directo, era o que a aluna e seus colegas queriam.

  • Anónimo  
    22 de março de 2008 às 17:34
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  • Helena  
    22 de março de 2008 às 17:45

    Naquela escola não existe as regras interiores escritas do estabelecimento ?
    E numa delas dizendo que se deve apagar o telm durante as aulas.

    Este video é demais, a reação da professora é inadmissivel..chegar a luta daquela maneira... bastava so fazer sair a aluna daquela sala e pronto.

    Um beijinho

  • Anónimo  
    22 de março de 2008 às 22:52

    caros amigos nunca estiveram dentro de uma sala de aula? e quantas vezes agrediram a professora? (ainda que a considerassem menos justa)Toda esta cena é de grande preversidade e violência...um grupo de alguns adolescentes a humilhar, a rir, a comentar de forma cruel e grosseira. Contém uma grande violência expressa e intuida...
    O impacto é esse ...não se trata de soluções fáceis de quem está de fora... o que choca é o que se adivinha na forma de estar no mundo, de alguns destes jovens ... a aluna em causa não será de certo lutadora de causas sociais, solidárias ou justas....
    A professora errou? Não teve senso?
    devia talvez ignorar a indisciplina, a má educação e dar matéria, fazer de conta...para "não ter chatices"... sair primeiro...expulsar a aluna...chamar a policia depois...?! Essa é a vossa noção de ensino...educação e forma de intervir no que possa estar mal...?não creio...
    Andei neste, na época, liceu carolina michaelis, ...algumas alunas da época lutavam por ideais de justiça, por um mundo melhor, por igualdade, liberdade e outras quimeras que nos fazem viver...
    não sou professora e em determinados momentos já assisti a maus profissionais sem cultura e prepotentes... neste caso nada disso está em causa...
    Esta aluna luta fisicamente com a professora na sala de aula!!! quem sabe, depois, dentro do teatro ..do cinema..de um concerto ouviremos o seu "direito de usar um telemovel porque lhe apetece..." porque ninguém lhe disse que é necessário ter limites e respeitar os outros.... A aluna , embora pareça, não é debil, mas senso e educação não demonstra nenhum... quem lhos vai ensinar?Quem a expulsa da sala?
    Esta cena vista quase em directo tem que gerar contorversia e reflexões....
    luisa quintela

  • Fernando  
    23 de março de 2008 às 22:50

    Dr.ª Luísa

    Obrigado pelo seu comentário e pelo seu contributo para esta discussão. Nenhum dos comentadores aqui defende a atitude da miúda. Obviamente este é um caso manifesto de má educação. E revelador de um novo tempo em que os pais, genericamente, se "demitiram" de educar os filhos e optaram por "comprar" o afecto dos filhos, bem ao contrário de antigamente, em que os pais exerciam a sua “autoridade” com “violência” física, em alguns casos, em particular nas camadas mais pobres da população. Passei por esses tempos e embora não concordando com o “método”, compreendo-o à luz das dificuldades de uma mãe para pôr termo, sozinha, à irreverência de muitos filhos, mas também não concordo com certa irresponsabilidade actual, mas também, muito sinceramente não me sinto competente para questionar ou julgar a forma de educar dos outros. Posso achar bem ou mal, mas não mais do que isso. Por graça, costumava dizer aos meus filhos, era eu treinador de uma equipa de Andebol de jovens (que comigo percorreram um caminho de cerca de dez anos), perante a dificuldade (porque também sempre fui um pai muito liberal na educação dos filhos) de fazer cumprir certas regras, que não havia melhor que eu para educar os filhos …mas os dos outros.

    Passando à frente o que quis mostrar com o meu artigo é que se está a extrapolar demasiado uma atitude, não tão inusitado ou grave assim. Em todos os tempos, em todas as classes sociais, no percurso escolar ou profissional, deparamo-nos com situações parecidas. Não sei sequer se vale a pena estar aqui a invocar Eça de Queirós nos "farpas" em 1871, quando dizia para aqueles tempos: "o país perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada, os carácteres corrompidos. A prática da vida tem por única direcção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido. Não há instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita". Nada de novo pois então! Não creio estarmos hoje pior do que no passado. Não estamos perante novos fenómenos de má-criação, indisciplina, desrespeito pela autoridade. Não creio que estamos perante um crescendo de criminalidade. Também não creio que estamos perante uma geração rasca, como se dizia há dez anos. Não creio sequer que estes comportamentos sejam um exclusivo dos jovens.

    Não quero com isto passar uma esponja sobre a atitude da miúda e enfim de todos os alunos presentes na aula, em particular (e isso sim pareceu-me muito mais grave) o aluno que filmava a cena, insultava a professora e ainda teve o descaramento de colocar a gravação na Internet. E também concordo consigo que há que atalhar estes comportamentos com firmeza. Mas com toda a sinceridade acho que se está a exagerar este caso. E que se está a dar contornos político/partidários inadmissíveis a um caso que é apenas... um caso de indisciplina, má-criação, irreverência juvenil em grupo. No meu caso preferi relevar a atitude da professora, com todo o respeito (e parece que é excelente pessoa …um doce de mulher como disse alguém que a conhecia bem), mas que cometeu um erro crasso de principiante. Pode acontecer a qualquer um. A professora nunca se deveria ter envolvido num corpo a corpo com a aluna. Perdeu nesse momento a autoridade que deve ter em todo o tempo. Já o disse: perante a recusa da miúda a professora, em minha opinião deveria ter ordenado a expulsão e feito uma participação disciplinar. E o assunto teria morrido ali.

    Também quis trazer à liça outro aspecto que julgo, deve merecer aprofundamento; que é a formação dos professores para além dos que respeitam à sua formação académica: formação sobre relacionamentos para perceber, identificar e actuar com alunos com perfis psicológicos dos alunos diferentes; gestão de conflitos; etc…

    Não sei se alguma coisa é feita neste aspecto, mas o que sei é que cada vez mais, as profissões que lidam com “públicos” cada vez mais são alvo de formação específica, para compreender os comportamentos e (re)agir em conformidade. Mas concordo com a Dr.ª …este tema merece mais alguma reflexão. O que acho vergonhoso são os oportunismos políticos/partidários (e creio ser insuspeito de simpatias politicas com o Governo) de casos individuais e pontuais de indisciplina, que uma qualquer regra escolar previamente instituída ou um estatuto do aluno, devem resolver, para exigir mais “pulso” e fazer chicana política.

  • Anónimo  
    27 de março de 2008 às 14:24

    Também acho vergonhosos os oportunismos que o caso revela e que os media ampliaram. Sem duvida alguma, tudo aquilo é deplorável como deploráveis são os oportunismos de uma certa direita revanchista e saudosa.
    Sobre isso estamos conversados!

    Agora uma outra questão dentro do mesmo tema:
    1 - Autoridade (do prof. no caso, mas não só) é incompatível com "ser de esquerda"?
    2 - Quando será que na esquerda nos emancipamos e por consequência emancipamos o povo em geral e de um modo muito particular damos a alforria aos jovens e, de uma vez por todas, deixamos de desculpar o indesculpável?

    Sr Fernando, a miúda por histerismo, por direito à sua privacidade, fosse lá pelo que fosse agiu mal. Foi ela quem primeiro violou as regras, ela e a turma evidentemente, foi ela e a turma que arrastaram a professora, por sinal uma jóia de pessoa como o senhor escreveu, para aquela lamentável reacção. Em suma tudo tem um princípio [evidentemente que o problema é a montante e as politicas educacionais – a eterna cobaia, fruta para todas as experiências – tem problemas profundos, a montante como escrevi, mas também a jusante…] no caso presente, sem defender que sobre a miúda ou a turma incida a expiação de todos os pecados da educação (para não escrever, falta) a punição tem que acontecer. Aquela turma deve ser extinta e, tal como é defendido por conceituados comentadores, os alunos distribuídos por outras turmas. Mas deixo as decisões sobre a matéria para os entendidos. Para mim o que importa é registar ESTOU FARTO DE, sobretudo na esquerda, DESCULPAR A PRETEXTO DE TUDO E MAIS ALGUMA COISA; O INDESCULPÁVEL.
    NÃO IREMOS LONGE, NA ESQUERDA, SE MANTIVERMOS ESTA BRANDURA PARA COM A INDISCIPLINA, SE PERSISTIRMOS, EM ARRANJAR JUSTIFICAÇÕES FILOSOFICAS, PSICOLOGICAS E OUTRAS PARA A MÁ EDUCAÇÃO E MÁ FORMAÇÃO.
    DISCIPLINA, RESPEITO E CONSIDERAÇÃO NÃO SÃO PATRIMÓNIO DA DIREITA, SÃO VALORES QUE NA ESQUERDA PRESERVO E QUE CONSIDERO FUNDAMENTAIS NUMA ESQUERDA SÉRIA, CULTA, RESPONSÁVEL E CAPAZ DE OPERAR A MUDANÇA QUE SE IMPÕE.
    Sr Fernando, por muito que o possa desapontar, estes valores, seriedade, respeito, educação, disciplina não são incompatíveis com o seu Bloco, que também é meu.

    Pedro Marçal

  • Anónimo  
    27 de março de 2008 às 14:28

    Estou em total sintonia com este texto de opinião de mario Crespo.

    «Há um caso exemplar no historial governativo socialista onde Maria de Lurdes Rodrigues podia ir buscar inspiração. Em Março de 2001, depois da queda da ponte de Entre-os-Rios, o ministro da tutela anunciou que se demitiria com efeitos imediatos. Foi a maneira consciente de mostrar responsabilidade.
    (...)
    Por favor, façam-me a justiça de não considerar sequer que estou a fazer comparações. A enorme crise que atravessa o sistema educativo em Portugal e a queda de uma ponte cheia de pessoas em cima, com as consequentes fatalidades, são situações de gravidade específica que não toleram comparações. O que digo é que a decisão de Jorge Coelho de se retirar de funções porque a ponte de Entre-os-Rios era responsabilidade de vários departamentos do seu ministério, é o modelo de comportamento governativo.
    (...)
    Maria de Lurdes Rodrigues tem um tremendo desastre entre mãos e contribuiu directamente para ele com as suas políticas de desrespeito de toda a classe docente e com o incompreensível arrazoado de privilégios estatutários garantísticos aos discentes, que estão a condenar toda uma geração e a comprometer o futuro de todo um país.
    (...)
    Depois de todos termos, finalmente, visto aquilo que realmente se passa nas nossas escolas, nada pode ficar na mesma. A DREN, que já se devia ter ido embora no escândalo do professor Charrua, tem de sair porque aquela gente obviamente não sabe o que está a fazer. O Conselho Directivo da Carolina Michaëlis tem de ser imediatamente substituído por gente capaz de proibir telemóveis e de impor (não tenham medo da palavra), impor, um ambiente de estudo na escola pública. Reparem que durante o desacato e o linchamento da professora nenhum dos alunos abre a porta da sala de aulas e pede ajuda.
    (...)
    Isso atesta que já não ocorre aos próprios alunos que haja na escola alguém capaz de impor disciplina e restabelecer a ordem.
    (...)
    Por isto a Turma do 9.ºC tem de acabar! Por uma questão de exemplo, os alunos têm de ser dispersos por outras turmas e o 9.º C deve ficar com a sala fechada o resto do ano, numa admoestação clara de que este género de comportamento chegou ao fim. Maria de Lurdes Rodrigues não pode ficar à espera de receber outra vez o apoio do primeiro-ministro. Depois disto, é seu dever sair do cargo. E não é, como diz constantemente, a mais fácil das soluções. É a medida necessária para que haja soluções. A saída da ministra é, viu-se agora, uma questão de segurança nacional. É a mensagem necessária para a comunidade escolar, alunos e professores, entenderem que o relaxe, a desordem e o experimentalismo desenfreado chegaram ao fim. Que não há protecção política que os salve já da incompetência do Ministério, da DREN e de tudo o mais que nestes três anos nos trouxe à vergonhosa situação que o vídeo do YouTube mostrou ao país e ao Mundo. Uma questão mais os sindicatos viram as imagens de um crime a ser cometido em público contra uma professora. Façam o que devem. Façam as devidas queixas-crime contra a aluna agressora e contra quem filmou e usou abusiva e ilegalmente da imagem da professora a ser martirizada. O crime foi visto por todos. O Ministério Público tem competência para mover o adequado processo contra esses alunos. Cumpram o vosso dever sem tibiezas palavrosas. Já não se pode perder mais tempo com disparates. »

    Pedro Marçal

  • Fernando  
    27 de março de 2008 às 17:10

    Pedro Marçal,
    Não sei se a esquerda desculpabiliza estes actos dos jovens, no seu conjunto, justificando-os com factores externos de ordem sociológica, psicológica, etc. Julgo que já não será tanto assim. Apesar de não se deverem escamotear os contextos. Mas passemos à frente. Se há coisas que não gosto são as generalizações, os alinhamentos com as agendas mediáticas e o pensamento dominante de comentadores de encomenda, (que abundam pelos media) e que vão formando a opinião maioritária. Tentei ser claro: penso que se está a instalar na sociedade portuguesa a ideia de que há um crescendo de criminalidade, que se perdeu a autoridade, que os costumes estão corrompidos, que os "jovens" não têm referências, valores, ética e são uns crápulas. Não é preciso estar muito distraído para notar este tipo de discurso e que é explorada pela direita para exigir mais "pulso" ou até o novo coordenador de segurança, general Leonel Carvalho, criticando a nova lei de segurança interna, para exigir "mais músculo" no país. Ou agora o Ministério Público a falar a investigar a violência nas escolas. Até o Mário Crespo, pessoa que prezo, como uma voz independente, há uns dias num artigo no JN dizia coisas espantosas como esta "se vejo um rapaz com um uma camisola preta de capuz tenho medo" Ora eu penso que há que desdramatizar um pouco estas coisas. Em minha opinião e também baseado nos números, as coisas não estão piores agora. A imprensa à falta de notícias empola situações sem a importância que lhe atribuem. Direi que nestes mais de 52 anos de vida encontrei situações parecidas embora mais "controladas".

    Quanto ao resto subscrevo o que diz: Consideração, Respeito, Disciplina, não são património da direita. São património das pessoas bem formadas. E não há que confundir assertividade, firmeza, com má criação ou má formação.

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